13.04.10
A importância das matérias primas e sua qualidade para a fabricação de medicamentos antroposóficos
por Silberto Azevedo
Rodolfo Schleier[2]
1. Fabricação de medicamentos
Os medicamentos antroposóficos são de origem natural, ou seja, suas matérias primas e materiais de partida são obtidos na natureza em primeiro lugar. São utilizados minerais, cristais, metais, ou plantas, incluindo suas partes, e órgãos animais ou seus produtos.
Esta escolha parte do princípio de que a evolução humana apresenta uma estreita relação com o desenvolvimento dos reinos da natureza. O que a natureza produziu (e ainda hoje produz) em matéria de formas e substâncias, tudo o que existe no âmbito de fora da organização humana, era ligado a esta em tempos passados.
Durante o seu desenvolvimento, a espécie humana adquiriu um maior grau de independência em relação à natureza. Tornou-se repleto de possibilidades, sem se especializar em uma só função, como ocorre com os animais. Aprendeu a dominar os processos naturais e a usá-los em seu favor. Ao longo do tempo, adquiriu liberdade individual e flexibilidade. Mas por outro lado, essa independência também trouxe a possibilidade de errar e de adoecer.
No organismo humano saudável coexistem aspectos minerais, vegetais e animais, que a sua organização do Eu consegue harmonizar. Quando o homem adoece, ele se iguala de certa forma aos fenômenos unilaterais observados na natureza. A possibilidade de cura é obtida pelo emprego de substâncias naturais, análogas aos processos doentios ali instalados. Tais substâncias estimulam e auxiliam o organismo a compensá-los, restabelecendo o equilíbrio.
A noção de que o ser humano reflete em si a evolução dos reinos naturais é bastante antiga. A Bíblia inclusive se refere ao homem como “Coroa da Criação”, feito à imagem e semelhança de Deus. Este conceito é retratado de forma impressionante em diversas obras sacras, como por exemplo, no Portal da Catedral de Chartres, na França.
Rudolf Steiner reuniu estas idéias antiquíssimas e repletas de sabedoria, e as trouxe à luz do conhecimento atual nas áreas da Medicina e Farmácia, de forma concreta e palpável. Aquilo que se encontra separado nos reinos da natureza como mineral, vegetal e animal, o homem traz em si, na forma das três organizações: física, vital e anímica. Ou em outras palavras, corpo físico, etérico e astral. O ser humano se apropria da natureza, e a “humaniza” no decorrer de sua vida.
Substâncias e processos idênticos aos observados nos reinos mineral, vegetal e animal constituem o ser humano, possibilitando a este a vida. O organismo humano digere as substâncias provenientes destes reinos, que servem de alimento, transformando-as em substância humana. O mesmo acontece em um nível mais elevado, onde a partir de sua organização do Eu, o homem transforma, purifica e desenvolve suas qualidades anímicas.
A fabricação de medicamentos para atender à terapia antroposófica leva em conta esta visão do homem, ou seja, ela prepara a substância para ser assimilada pelo homem, através de processos farmacêuticos especiais.
2. Matérias primas de origem vegetal
Nos dias de hoje, a natureza sofre diversas conseqüências da ação do homem ao longo dos séculos. Em nenhum lugar do mundo atual a natureza tem a oportunidade de se desenvolver exclusivamente de acordo com as leis da terra e do Cosmo.
É de senso comum que as plantas medicinais devem ser coletadas de preferência no local onde elas ocorrem espontaneamente, pois ali elas expressam ao máximo as suas propriedades curativas. Porém, a coleta de plantas em estado selvagem tem crescido intensamente, devido ao grande interesse pelos produtos naturais nas últimas décadas. Esse fato, aliado à destruição da natureza e à poluição ambiental, tem contribuído para reduzir drasticamente as áreas de vegetação nativa ao redor do mundo.
Atentos para esse fato, os fabricantes de medicamentos antroposóficos se preocuparam desde o início em proteger ecossistemas selvagens, regenerar locais degradados, ou na impossibilidade destes, cultivar tais plantas em local protegido. O cultivo de plantas medicinais é um dos trabalhos mais importantes dentre as várias etapas de fabricação de medicamentos naturais. Pelos motivos já citados esse trabalho ganha destaque, pois além de possibilitar aumento da oferta de matéria prima, contribui ao mesmo tempo para conservar e promover a biodiversidade.
Os laboratórios de orientação antroposófica mantêm e/ou apóiam projetos de pesquisa e desenvolvimento de cultivo de plantas, em diversos países, que buscam reproduzir da maneira mais fiel possível às condições em que a planta se desenvolve na natureza.
É o caso, por exemplo, do Weleda Garten[3], projeto da Weleda A.G. na Suíça que se dedica ao cultivo das plantas para próprio consumo. Além dos cultivos próprios, a matéria prima também é adquirida de empresas que seguem a mesma filosofia (ex.: Salamita, na Itália). A Weleda[4] e a Wala[5] também contribuem com cooperativas de agricultores nos países em desenvolvimento: Turquia (óleo de rosas), Peru (Ratânia e menta), Romênia (arnica), Bulgária, Burkina Faso.[6]
Vários institutos de pesquisa dão suporte técnico para esses trabalhos, como por exemplo, o Institut für Pflanzenbau (Instituto de Agricultura) de Bonn na Alemanha e o Instituto Biodinâmico em Botucatu no Brasil.
3. Agricultura Biológico-dinâmica
Um método de cultivo da terra especialmente indicado para o cultivo de plantas que servirão de base para a produção de medicamento antroposófico é o método conhecido como agricultura biológico-dinâmica. Ela garante um solo saudável, vivo, que dispensa o uso de adubos químicos e/ou pesticidas. No lugar destes, são utilizados compostos naturais de ação regeneradora e fortificante, sempre de origem natural.
Desta maneira os canteiros de plantas medicinais apresentam uma ampla gama de espécies vegetais, bem como de pequenos animais, especialmente insetos e pássaros. Isto contribui para a biodiversidade do ecossistema local e confere à planta medicinal uma qualidade superior sob todos os aspectos.
A agricultura biológico-dinâmica promove a simbiose entre diferentes espécies, ao contrário da agricultura convencional que se baseia na monocultura e lança mão de herbicidas e venenos para afastar os “invasores”. Os insetos e pássaros são importantes para a polinização, por exemplo.
As espécies vegetais se desenvolvem de maneira mais saudável (num significado mais amplo), quando são respeitadas as condições de crescimento. Isso contribui consideravelmente para a qualidade do produto final.
As empresas e cooperativas que utilizam esse método, incluindo seus agricultores e colaboradores, se baseiam no princípio de “organismo vivo”. Ou seja, sua meta é o desenvolvimento auto-sustentável, sob todos os aspectos (econômico, profissional, pessoal). Os ritmos dos processos vitais da natureza são bem conhecidos e respeitados, para que a planta possa de desenvolver de acordo com eles.
Várias pesquisas científicas evidenciam um aumento significativo da fertilidade do solo, quando se emprega o método biológico-dinâmico. O cultivo em concordância com os ritmos vitais naturais faz com que a planta atinja o máximo de sua força vital, originando alimentos e medicamentos de qualidade superior.
O desenvolvimento regional é fortemente incentivado, através da constituição de cooperativas e/ou formas mais justa de distribuição da renda. As experiências com agricultura biológico-dinâmica em vários países mostram que ela contribui para a fixação do homem na terra, de modo sustentável. Ela propicia relações de trabalho mais dignas no campo, e evita problemas sociais causados pela migração em massa para as grandes cidades.
4. Colheita e processamento
Um passo importante para a qualidade do medicamento antroposófico é a escolha correta do ponto de colheita, bem como das partes da planta. A escolha é feita de acordo com a visão antroposófica da natureza e do ser humano, com a finalidade de influenciar determinado processo orgânico e/ou doença.
Por analogia, descobre-se a relação entre processos doentios no ser humano e os processos vitais que se desenvolvem na planta. O momento da colheita se dá quando a planta atinge certo estágio de desenvolvimento no qual se obtém o seu máximo de propriedades terapêuticas.
Um critério para a escolha correta do ponto de colheita pode ser o teor de substâncias com propriedades medicinais conhecidas, óleo essencial, por exemplo.
Outro critério importante pode ser a estação do ano. É o caso do hipérico, que é colhido no verão, quando a planta recebe o máximo de irradiação solar (representando aqui as forças cósmicas). Nesta época o hipérico começa a florir, e esta é justamente a melhor época para a sua colheita, que quando ele atinge o máximo de seu desenvolvimento ao longo do ano.
Outro exemplo é o do Viscum album, que é colhido em duas épocas distintas do ano. Ao contrário da maioria das plantas, no verão o visco forma sua folhagem esférica, e no inverno é que surgem brotos e flores. Os dois pontos de colheita aqui se direcionam aos processos especiais que ocorrem no visco. Depois os dois extratos são misturados, para elaboração do medicamento Viscum album.
Após a colheita se faz necessário o processamento urgente da planta fresca, de preferência no mesmo dia. Em muitos casos, quando a coleta é feita em local distante da fábrica, o transporte é realizado de modo a preservar as características da planta. Assim pode-se conservar a planta usando os processos de congelamento, com nitrogênio líquido, ou de secagem desta. [7]
Por meio de aparelhos próprios ou com as mãos, a planta é dividida em partes menores. É preciso protegê-la da exposição ao oxigênio, bem como calor e luz fortes. Num próximo passo, a planta finamente dividida é imersa num líquido extrator, e submetida ao processo farmacêutico adequado. Para a elaboração de tinturas-mãe, seguem-se preferencialmente os métodos descritos na Farmacopéia Homeopática Alemã (HAB)[8], específicos para cada planta, utilizando misturas de álcool e água em proporções variáveis.
5. Matérias primas de origem mineral
A medicina antroposófica lança mão de uma série de minerais ou metais dinamizados. Como matérias primas são empregadas minérios, em seu estado natural. Não se permite o uso de substâncias produzidas por síntese química. É importante prestar atenção à pureza, solidez, coloração e forma dos cristais ou minerais. Aqui também vale o princípio, de que quanto mais pura e mais próxima da sua forma natural, mais adequada a substância será para a fabricação do medicamento.
O mundo mineral atual é resultado de um intenso processo de condensação, endurecimento e morte, pelo qual passaram substâncias pertencentes à esfera vital, num passado remoto. Na fase final desse processo a substância chegou a um estado de repouso, contendo os diferentes minerais atuais com suas várias formas, cores e densidades. Através da dinamização o farmacêutico traz de novo a substância morta ao âmbito da vida, despertando suas propriedades latentes para que elas possam atuar no ser humano.
No processamento químico dos metais, sempre que possível, evita-se o uso de substâncias de origem desconhecida. A origem da matéria prima deve estar documentada. O caminho que a substância percorre até se tornar um medicamento deve transcorrer sem a interferência de resíduos estranhos ou desconhecidos. Também o uso de máquinas é desestimulado. Esta alta exigência de qualidade faz com que a maioria dos processos de fabricação nos laboratórios antroposóficos seja feitos totalmente à mão. Procedimentos usuais no tratamento dos metais são: pulverização em almofariz, tamisação, filtração, dissolução, cristalização, fusão e destilação (entre outros).
Um processo específico da farmácia antroposófica é o chamado “espelho metálico”. Um mineral natural é aquecido e submetido à redução com carvão. Depois ele é fundido em uma retorta de quartzo sobre um queimador de sopro. O vapor produzido é recolhido na forma de precipitado finíssimo sobre uma superfície fria. Assim se obtêm miligramas de metal sob forma pura, com propriedades físico-químicas diferentes do material de partida, que então é dinamizado em lactose. Estes medicamentos são os chamados metallicum praeparatum ou met. praep.[9]
6. Matérias primas derivadas do reino animal
Matérias primas de origem animal constam de várias farmacopéias da União Européia, bem como de monografias de laboratórios. Deve-se estar atento para a ausência de vírus e outras partículas patogênicas, tais como príons causadores da encefalopatia espongiforme bovina[10], de acordo com as regras do setor. Também neste caso, todo o caminho percorrido da matéria prima animal da origem ao laboratório deve estar totalmente documentado, sem lacunas, de modo a assegurar a sua origem.
O animal do qual se pretende retirar um ou mais órgãos para fabricação de medicamento deve pertencer a um rebanho homogêneo, certificado, de manejo biológico-dinâmico. Somente estes apresentam um organismo harmonioso, capaz de ativar a vida no solo (através das fezes) e assim contribuir para o desenvolvimento vegetal.
Também é fundamental que a criação de animais seja uma atividade essencial da propriedade rural, interligada com as demais. O cuidado de um rebanho dentro dos princípios biológico-dinâmicos se caracteriza pela atenção aos processos vitais, num cuidado contínuo e amoroso.
Os princípios do manejo biológico-dinâmico de animais estão regulamentados por normas rigorosas do Parlamento Europeu e outras entidades não governamentais. O cumprimento destas regras garante a qualidade e homogeneidade da matéria prima. Para gado bovino, por exemplo, exige-se que o animal tenha pastado ao ar livre. Não se permite o uso de animal confinado. O alimento para o gado deve ter sido gerado na própria fazenda. O gado não pode ter recebido nenhum alimento de origem animal, exceto leite. A saúde dos animais e conseqüentemente das matérias primas depende do cuidado e alimentação adequados, bem como da escolha de raças mais apropriadas.
Animais não domésticos, como por exemplo, formigas, devem proceder de coleta silvestre, absolutamente certificada pelas autoridades ambientais. Vale aqui o princípio de preservação ambiental, de que a natureza não será lesada pela coleta. A observação às normas internacionais de proteção ao meio ambiente é fundamental.
7. A integração entre manejo ecológico e economia sustentável
Os ideais de manejo ecológico e economia sustentável já fazem parte da missão e filosofia das empresas farmacêuticas de orientação antroposófica, desde o início na década de 1920. Busca-se não somente a saúde do ser humano, mas também a saúde de todo o organismo Terra. Este princípio permeia todas as atividades profissionais dos trabalhadores nessas empresas.
Seria lógico de se compreender, portanto, quando em meados dos anos 90 diversas empresas de medicamentos antroposóficos na Alemanha receberam várias certificações ambientais de organismos internacionais, como a ISO 14001. As empresas em questão sempre vão além do que é exigido por lei, no sentido de uma estratégia mundial ecologicamente orientada.
Por exemplo, a redução da emissão de CO2 tem sido uma meta continuamente perseguida, através da utilização crescente de fontes de energia renováveis nas instalações industriais. Uma série de medidas bem-sucedidas de proteção ambiental tem sido continuamente posta em prática, de modo que algumas empresas farmacêuticas antroposóficas vêm conquistando diversos prêmios internacionais.
Sempre são empregadas técnicas de agricultura biológico-dinâmica e/ou ecológica, no cultivo das plantas medicinais (vide tópico correspondente). Ou no caso de plantas silvestres, estas são coletadas em áreas próprias, onde existe o compromisso de reposição de modo a preservar a biodiversidade. Dentro dessa mesma orientação ecológica, existe a preocupação constante de não efetuar experimentos em animais. [11]
Referências:
German Homoeopathic Pharmacopeia Comission: German Homoeopathic Pharmacopeia, 2004 (hab 2004). 4th. Edition, Stuttgart, Germany, Medpharm GMBH Scientific Publishers, 2005.
GLÖCKLER, M. Anthroposophische Arzneitherapie für Arzte und Apotheker. Vol. 1 e 2, Stuttgart: Wissenschaftliche Verlagsgesellschaft, 2005.
http://www.weleda-naturals.de/index.php?id=weledagarten
[1] Traduzido a partir do livro original: GLÖCKLER, M. Anthroposophische Arzneitherapie für Arzte und Apotheker. Vol. 1 e 2, Stuttgart: Wissenschaftliche Verlagsgesellschaft, 2005.
[2] Rodolfo Schleier é farmacêutico-bioquímico (USP) especialista em fitoterapia (FACIS-IBEHE). Desde 2005 atua no Departamento Médico-Científico do Laboratório Weleda.
[3] http://www.weleda-naturals.de/index.php?id=weledagarten
[5] http://www.wala.de/english/
[6] N. do T.: A Weleda do Brasil possui um sítio em São Roque, interior de São Paulo, onde é cultivada boa parte dos insumos vegetais. Ela também tem parcerias com produtores certificados, para plantas que demandam área de cultivo maior.
[7] N. do T. Nitrogênio é o gás inerte predominante na atmosfera utilizado para conservação de material biológico.
[8] German Homoeopathic Pharmacopeia Comission: German Homoeopathic Pharmacopeia 2004 (HAB 2004). 4th
Edition, Stuttgart, Germany, Medpharm GmbH Scientific Publishers, 2005.
[9] N. do T. Um exemplo prático: o Kalium aceticum (acetato de potássio) Weleda é obtido através da reação entre ácido acético natural (vinagre) e um minério de potássio. Não é permitido o uso de Acetato de potássio do mercado, de origem sintética.
[10] N. do T.: Muito antes do aparecimento da encefalopatia espongiforme bovina, conhecida popularmente como “doença da vaca louca”, Rudolf Steiner já havia alertado que o uso de proteína animal na alimentação das vacas traria conseqüências graves, pois a vaca não consegue digeri-la totalmente, e os seus resíduos causariam danos ao sistema nervoso do animal. Na época, essa informação foi ridicularizada pelos pecuaristas que confinavam o gado para economizar espaço, e davam ração contendo restos de carne. No final do século XX, quando apareceram os primeiros casos dessa doença, a carne brasileira levou vantagem, pois era oriunda de gado de pasto, não confinado.
[11] N. do T. Além da preocupação ambiental, existe uma forte preocupação com a qualidade de vida dos colaboradores. Os funcionários da Weleda A.G. têm à sua disposição: um restaurante com certificação orgânica; uma creche que segue o método Waldorf; atendimento médico antroposófico e medicamentos Weleda gratuitos; euritmia laboral durante o expediente, entre outros benefícios. A Weleda do Brasil vem ampliando gradativamente o leque de benefícios. Já há muito tempo seus colaboradores contam com alimentação natural, com opções vegetarianas e desconto nos medicamentos antroposóficos. Recentemente foram implementados ginástica laboral e atendimento médico antroposófico. Uma pesquisa de clima realizada em 2009 mostrou como principal ponto positivo o bom relacionamento entre colaboradores.





