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26.10.10

CRANBERRY NO TRATAMENTO E PREVENÇÃO DAS INFECÇÕES DO TRATO URINÁRIO

por

Poliana Teixeira[1]

1.      Aspectos gerais da Infecção do Trato Urinário

A Infecção do Trato Urinário (ITU) é uma patologia freqüente, que ocorre em todas as idades, do neonato ao idoso. Durante o primeiro ano de vida, devido ao maior número de malformações congênitas acomete preferencialmente o sexo masculino. A partir deste período, durante toda a infância e principalmente na fase pré-escolar, as meninas são acometidas 10 a 20 vezes mais do que os meninos. Na vida adulta, a incidência se eleva e o predomínio no sexo feminino se mantém, com picos de maior acometimento no início ou relacionado à atividade sexual, durante a gestação ou na menopausa, de forma que 48% das mulheres apresentam pelo menos um episódio ao longo da vida. Na mulher, a susceptibilidade se deve à uretra mais curta e a maior proximidade do ânus com o vestíbulo vaginal e uretra. No homem, o maior comprimento uretral, maior fluxo urinário e o fator antibacteriano prostático são protetores. Considerando-se a população geral, as infecções urinárias são mais comuns em mulheres, na proporção de três para um homem.

A ITU é classificada como não complicada quando ocorre em paciente com estrutura e função do trato urinário normal e adquirida fora de ambiente hospitalar. A avaliação urológica deve ser indicada em neonatos e crianças com infecção persistente após 72 h de terapia, ITU recorrente em homens ou em transplantados renais e também em mulheres com reinfecções freqüentes. (HEILBERG & SCHOR, 2003).

Existe consenso de que os microorganismos uropatogênicos como a Escherichia coli colonizam o cólon, a região perianal, e nas mulheres, o intróito vaginal e a região perianal. Posteriormente, processa-se a ascensão facultativa para bexiga e/ou rins, pois em condições normais há competição entre estes microorganismos com a flora vaginal e perineal.

A freqüência dos germes causadores de ITU varia na dependência de onde foi adquirida a infecção, intra ou extra-hospitalar e também difere em cada ambiente hospitalar considerado. Os maiores responsáveis pela ITU são os germes gram-negativos entéricos especialmente a Escherichia coli, que é o mais freqüente, seguido dos demais gram-negativos como Klebsiella, Enterobacter, Acinetobacter, Proteus, Pseudomonas, dentre outros. Além destes, na maioria das séries americanas, o Staphylococcus saprophyticus, um germe gram-positivo, tem sido apontado como segunda causa mais freqüente de ITU não complicada. O diagnóstico de ITU por S. saprophyticus é por vezes difícil, pelo fato de apresentar um crescimento muito lento em urocultura e também porque este agente pode ser confundido com outro. (HEILBERG & SCHOR, 2003).

Existem também vários fatores predisponentes do hospedeiro que participam na patogenia da ITU: Obstrução do trato urinário, Refluxo vésico-ureteral, Cateterização urinária, Gravidez, Diabetes mellitus, Relação sexual / Métodos contraceptivos, Prostatismo, Idade avançada e Transplante renal.

Os sintomas clínicos no indivíduo adulto característicos de cistite são a disúria (dificuldade para urinar), polaciúria ou aumento da freqüência urinária, urgência miccional, dor em baixo ventre, arrepios de frio ou calafrios, com presença ou não de dor lombar. Podem fazer parte do quadro clínico mal-estar geral e indisposição. No indivíduo idoso é comum dor abdominal ou distúrbio de comportamento na ITU. Em crianças o principal sintoma pode ser dor abdominal. Em recém-nascidos, o diagnóstico clínico de ITU se torna suspeito quando na presença de icterícia fisiológica prolongada associada ou não à perda de peso (30% dos casos), hipertermia, presença de complicações neurológicas (30%), diarréia, vômitos ou cianose. Em lactentes, o déficit pôndero-estatural, diarréia ou constipação, vômitos, anorexia ou febre de etiologia obscura, podem levar a suspeita de ITU. Por fim, na faixa pré-escolar os sintomas podem ser: febre, enurese (micção noturna), disúria ou polaciúria. No adulto, existe superposição entre os sintomas clínicos de ITU “baixa” vs “alta” (cistite vs pielonefrite). No entanto, a febre e a dor lombar são muito mais comuns na pielonefrite, que se acompanha também de toxemia e queda do estado geral mais importante.

A profilaxia de ITU está indicada principalmente em mulheres com ITU recorrente, que apresentem mais do que duas infecções por ano, ou quando da presença de fatores que mantém a infecção como cálculos.

Algumas recomendações para o manuseio não medicamentoso de pacientes com ITU recorrente ou com bacteriúria assintomática incluem:

a) aumento de ingestão de líquidos;

b) urinar em intervalos de 2 a 3 horas;

c) urinar sempre antes de deitar ou após o coito; evitar o uso de diafragma ou preservativos associados a espermicida (para não alterar o pH vaginal);

d) evitar banhos de espuma ou aditivos químicos na água do banho (para não modificar a flora vaginal);

e) aplicação vaginal de estrógeno em mulheres pós menopausadas.

Outras medidas não medicamentosas que também têm sido sugeridas para redução de recorrência em ITU em mulheres na pré-menopausa incluem: instilação vaginal de Lactobacillus casei uma vez por semana (redução de 80% em um estudo); acidificantes urinários tipo Mandelato de Metenamina associados ou não à vitamina C; ingestão de suco de “Cranberry” (Vaccinium macrocarpon), que inibe a expressão de fimbrias da E. coli. (HEILBERG & SCHOR, 2003).

2.      Cranberry um potente oxidante e preventivo da ITU

O Cranberry é uma fruta diferente de qualquer outra do mundo. Nos Estados Unidos ela tem um importante papel nos tradicionais feriados e é símbolo de uma vida saudável. Sua história data de centenas de anos, por volta de 1620, quando americanos misturavam carne de alce com uma pasta, elaborada com a fruta, para conservar o alimento por um longo período. Além disso, também usavam o suco vermelho como tinta natural na coloração de tapetes, cobertores e roupas e, ainda, acreditavam em suas propriedades anti-sépticas, pois utilizavam o Cranberry em ferimentos causados por flechas venenosas. Conta à lenda que os peregrinos serviram Cranberries no primeiro dia de Ação de Graças em Plymouth, juntamente com peru selvagem. Durante a 2ª Guerra Mundial, tropas americanas solicitavam em torno de um milhão de quilos de Cranberries desidratadas, por ano, como forma de alimentação saudável para os soldados.

O Cranberry é uma planta nativa da América do Norte que apresenta em sua composição antocianidinas, flavonóides, proantocianidinas, taninos condensados e ácidos fenólicos, estes componentes podem impedir a adesão de certas bactérias, incluindo a Escherichia coli, associada às infecções do trato urinário. As propriedades de anti-adesão do Cranberry podem também inibir as bactérias associadas à úlcera estomacal. Pesquisas científicas recentes também demonstram que o Cranberry contêm quantidades significativas de antioxidantes e outros fitonutrientes com o potencial de impedir danos oxidativos causados pela espécie reativa do oxigênio deste modo, protege o organismo contra doenças cardiovasculares e câncer.

3.      Propriedades

Nome comum: Cranberry

Nome científico: Vaccinium macrocarpon

Família: Ericaceae

Parte usada: Fruto

Trato urinário

Os povos indígenas utilizam por séculos preparações de Cranberry para tratar infecções do trato urinário (UTI) e outras doenças. O Cranberry contem proantocianidinas (PACs), que inibe a adesão das bactérias, incluindo a Escherichia coli, ao epitélio do trato urinário e subsequentemente ocorre a diminuição da reprodução da bactéria que causa a infecção.

Howell et al. foi o primeiro a relatar as propriedades de anti-adesão do Cranberry em 1998. Em 2002, a Conferência de Biologia Experimental, relatou através de um estudo clínico com 6 voluntários que o suco de Cranberry impede a adesão da E. coli nas células do trato urinário através da contagem de E. Coli na urina dos voluntários.

Gráfico 1: Atividade de anti-adesão bacteriana da proantocianidina presente no Cranberry e em outros alimentos.

Um estudo clínico recente sugere que as proantocianidinas do Cranberry (taninos condensados) podem inibir a adesão da Escherichia coli às células epiteliais do trato urinário, impedindo, desta forma, a ocorrência da infecção.

Este estudo concluiu que comparado ao placebo, a ingestão de suco de Cranberry promove atividade antiaderente significativa contra diferentes cepas uropatogênicas da E. coli na urina, o que comprova sua eficácia.

Anti adesão bacteriana e resistência ao antibiótico

As teorias recentes referem que o mecanismo de ação do Cranberry na prevenção da ITU está relacionado à acidificação da urina. Entretanto, este mecanismo ainda não foi confirmado. Os compostos responsáveis foram identificados por Howell et al. como proantocianidinas e taninos condensados.

Um trabalho mais detalhado apresentou em abril de 2002 que em testes com Cranberries, uvas, maçãs, chás e chocolates, apenas os Cranberries exibiram a habilidade de impedir a adesão da bactéria.

Novas pesquisas indicam que Cranberry pode agir em outra parte do corpo, além do trato urinário de encontro também a outras bactérias. A adesão dos diferentes tipos de bactérias que causam úlceras no estômago e doença periodontal (cáries), pode ser inibida na presença do Cranberry, e é provável ainda que outras bactérias susceptíveis também sejam. O consumo regular de Cranberry não só ajuda a manter a saúde, mas reduz o número de infecções, e sendo assim evita que sejam ingeridas altas doses de antibióticos, reduzindo ainda a probabilidade de aparecimento de bactérias resistentes, sendo este, um problema de saúde pública de proporção global.

Antioxidante

Os antioxidantes são compostos produzidos naturalmente pelo organismo humano e/ou ingeridos. Eles têm a habilidade de estabilizar os radicais livres doando um elétron. Sob circunstâncias de stress a habilidade do corpo humano em produzir antioxidantes pode se tornar severamente danificada.

O Cranberry pode conter mais antioxidantes fenólicos quando comparados as outras frutas. Estes antioxidantes podem ter um papel importante na prevenção de doenças do coração e em determinados tipos de câncer. (Gráfico 2).

Gráfico 2: Comparação do poder antioxidante do Cranberry em relação às frutas normalmente consumidas.

Odontologia

Um estudo publicado no Journal of the American Dental Association relatou que um componente de alto peso molecular do Cranberry tem a habilidade de reverter e inibir a agregação de determinadas bactérias orais responsáveis pela placa dental e doença periodontal in vitro. Além do Cranberry, este ativo também foi isolado de Blueberry, mangas, pêssegos, ameixas e framboesas. A atividade de inibição foi encontrada apenas no Cranberry, porém uma atividade mais fraca foi encontrada no Blueberry e as outras frutas testadas não mostraram nenhuma atividade de inibição. Outro estudo publicado na Critical Reviews in Food Science and Nutrition relatou em uma experimentação clínica preliminar o uso do enxaguatório bucal contendo Cranberry, as amostras de saliva do grupo experimental mostraram a redução da formação de colônias de Streptococcus mutans (grande formador de cárie dental) comparado ao grupo placebo.

Algumas evidências sugerem que as proantocianidinas contidas no Cranberry interferem na agregação de bactérias que formam a placa dental. Baseado nisto, o Cranberry tem sido proposto no tratamento profilático de doenças bucais. (Ervin Weiss et al, 2004).

Úlcera

As úlceras pépticas estão aumentando constantemente e ao contrário da causa ser o estresse e/ou a acidez estomacal, seu crescimento se dá pela infecção da bactéria Helicobacter pylori. Um constituinte de alto peso molecular presente no suco de Cranberry foi usado para inibir a adesão do H. pylori no fluído gástrico in vitro. Estes resultados preliminares sugerem que o Cranberry pode ser benéfico na prevenção de úlceras pépticas com a inibição da adesão do H. pylori no epitélio gástrico. O H. pylori é capaz de sobreviver no revestimento da mucosa do estômago e do duodeno neutralizando o ácido do estômago, em seu ambiente local, através da hidrólise da uréia. Além das úlceras, a infecção por H. pylori é ligada aos adenocarcinomas gástricos (câncer de estômago), a doença de refluxo e as gastrites (inflamação no estômago).

Zhang et al, 2005 testaram a eficácia do suco de Cranberry na infecção por Helicobacter pylori, e concluíram que o consumo regular do suco de Cranberry pode suprimir a infecção do H. pylori em populações infectadas e com propensão ao câncer gástrico.

Coração

A aterosclerose, no termo mais simples, é a acumulação nas artérias da lipoproteína de baixa densidade (LDL) ou “mau colesterol” tendo por resultado um fluxo restrito do sangue. Nos estágios avançados da doença o fluxo sanguíneo pode ser diminuído severamente ou cessar completamente tendo por resultado a angina, a trombose e/ou o infarto do miocárdio. Os flavonóides foram mostrados como potentes antioxidantes in vitro e in vivo e podem reduzir o risco da aterosclerose. Os Cranberries contêm quantidades significativas de flavonóides e de compostos polifenólicos que foram demonstrados para inibir a oxidação da lipoproteína de baixa densidade (LDL) ou “mau colesterol”.

Antienvelhecimento

Estudos preliminares sugerem que dietas que contêm frutas e vegetais com altos valores de ORAC (Oxigen Radical Absorbance Capacity) podem fornecer proteção contra a perda da coordenação e da memória associadas à idade elevada. Os Cranberries marcam a elevação na escala antioxidante em 1750 unidades de ORAC por 100 g da fruta fresca.

Gráfico 3: Valores de ORAC (Capacidade de Absorbância do Radical Oxigênio) em diversas frutas e vegetais.

Indicações

Entre outras indicações, as mais significativas são:

ü     Infecção do trato urinário (tratamento e prevenção);

ü     Doença periodontal;

ü     Tratamento de úlcera estomacal causada por H. pylori;

ü     Anti-envelhecimento;

ü     Anti-câncer.

Posologia

Via oral é utilizado na dose de 300 a 500 mg do extrato seco (padronizado 25-30%) duas vezes ao dia.

Contra indicações

Nefrolitíase.

É considerado seguro seu uso na gravidez e na lactação.

Efeitos adversos e toxicidade

Apresenta segurança quando usado oralmente, embora as doses altas possam causar diarréia e sintomas gastrintestinais.

Precauções

Deve ser utilizado com extrema precaução em crianças com idade abaixo de 2 anos. Utilizar com cautela em indivíduos sob medicação e com condições médicas pré-existentes. O uso por períodos prolongados pode aumentar o potencial de efeitos adversos.

Interações

O excessivo uso de Cranberry pode aumentar a excreção e reduzir os níveis sanguíneos de alguns medicamentos, tais como certos antidepressivos, antipsicóticos e analgésicos a base de morfina. Baseado nisto, o uso de Cranberry é indicado como antídoto em overdose por fenciclidina. Não há relatos de interação com antibióticos, mas teoricamente alguns antibióticos parecem inibir a acidificação urinária (Bratman et al., 2003).

Formulações

ü     Cápsulas com extrato de Cranberry

Extrato de Cranberry (Vaccinium macrocarpon)….200 – 400 mg

Excipiente* qsp………………………………………………..1 cápsula

Indicação: infecção do trato urinário, doença periodontal.

Posologia: 1 cápsula 2x ao dia.

ü     Cápsulas com extrato de Cranberry e Vitamina C

Extrato de Cranberry (Vaccinium macrocarpon)…. 300 mg

Vitamina C ……………………………………………………. 100 mg

Excipiente* qsp………………………………………….. 1 cápsula

Indicação: infecção do trato urinário.

Posologia: 1 cápsula 2x ao dia.

Referências Bibliográficas

Cranberry Infome técnico Pharmanostra

Cote J. ; Caillet S.; Doyon G.; Sylvain F.; Lacroix M. Analyzing Cranberry Bioactive Compounds. Critical Reviews in Food Science and Nutrition, 1549-7852, Volume 50, Issue 9, 2010, Pages 872 – 888

Ervin I. Weiss; Roni Lev-Dor; Yoel Kashamn; Janina Goldhar; Nathan Sharon; Itzhak Ofek. Inhibiting interspecies coaggregation of plaque bacteria with a Cranberry juice constituent. J Am Dent Assoc, Vol 129, No 12, 1719-1723.
© 1998 American Dental Association.

Ervin I. Weiss; Doron Steinberg; Mark Feldman1; Itzhak Ofek; Effect of a high-molecular-weight component of cranberry on constituents of dental biofilm JAC vol.54 no.1 q The British Society for Antimicrobial Chemotherapy 2004.

Foo LY, Lu Y, Howell AB, Vorsa N. The structure of cranberry proanthocyanidins which inhibit adherence of uropathogenic P-fimbriated Escherichia coli in vitro. Phytochemistry 2000; 54:173-81.

Howell A. B.; Vorsa N; Marderosian, A. D. ; Foo, L. Y. Inhibition of the Adherence of P-Fimbriated Escherichia coli to Uroepithelial-Cell Surfaces by Proanthocyanidin Extracts from Cranberries, New England Journal of Medicine, 1998.

Lian Zhang; Junling Ma; Kaifeng Pan; Vay Liang W. Go; Junshi Chen; Wei-Cheng You. Efficacy of cranberry juice on helicobacter pylori infection: a double-blind, randomized placebo-controlled trial Blackwell Publishing Ltd, Helicobacter, 10, 139–145, 2005

The Cranberry Institute. Disponível em: www.cranberryinstitute.org

World J Urol. 2006 Feb;24(1):21-7. Epub 2006 Jan 6.

ATENÇÃO: ESTE TEXTO TEM CARÁTER INFORMATIVO. NÃO USE PLANTAS MEDICINAIS OU MEDICAMENTOS SEM O CONHECIMENTO DO SEU MÉDICO.

“SE PERSISTIREM OS SINTOMAS, O MÉDICO DEVERÁ SER CONSULTADO.”


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