11.12.08
O corpo/morada: nossa história encarnada
por Silberto Azevedo
Samira C. Zar*
Utilizamos nosso corpo a partir daquilo que percebemos e experimentamos, para traduzir nossas emoções e nossa vivência. Nosso corpo e personalidade são construídos a partir de vários fatores: o genético, o ambiente, a família, a cultura, o comportamento e etc. E por esta complexidade, adotamos um modo específico (singular) de erigir e agir no mundo, manifestando um estilo próprio de ser. (Goodelieve Denys- Struyf, 1995)
Por esta perspectiva, o corpo é, com suas formas, posturas, movimentos e gestos, um instrumento de nos personalizar e comunicar. Nosso corpo é linguagem! Quando nos movimentos, nosso gesto molda o nosso corpo, exprimindo algo de nós. Muitas vezes, podemos exprimir em nossa postura aquilo que nossas palavras não conseguem expressar.
Portanto, o corpo é submetido a várias ações e reações durante a vida.
E esse processo se traduz no comportamento e na criação de um estilo de mover-se, ao construir e desconstruir posturas para satisfazer necessidades e desejos.
Isso é natural e saudável. Mas quando ultrapassamos nossos limites ou ignoramos nossa real aspiração, o corpo reclama e dá sinais de insatisfação. Dores, limitações, fadiga e stress podem surgir como pedido de ajuda e mudança.
Conhecer e compreender os sinais do nosso corpo é tê-lo como um aliado na trajetória de nossa existência para, possivelmente, caminharmos com saúde. Desde modo, creio na importância de darmos “espaço” e “tempo” para sentirmos o nosso corpo, mesmo que seja para percebê-lo em dor e limitação ou sentir o calor e a pulsação ritmada em nossa pele quando fluímos em nossas ações e movimentos. Mas o importante é que estejamos sempre “presentes” em nossas experiências e a partir daí, segundo meu ponto de vista, existe um solo fecundo para cuidarmos do nosso Corpo, quer seja por meio de alongamentos globais, massagens, movimentos reestruturantes, reeducações de movimento, posturas e etc.
Na atualidade, em decorrência da intensa fragmentação do ethos promovida pelo excesso da globalização e da hegemonia da técnica, o tipo de sofrimento que encontramos, também na clínica fisioterápica, está para além dos desgastes físicos decorrentes de intensas jornadas de trabalho, de horas de adaptação postural frente a um computador, de falta de tempo para cuidar-se, caminhar, etc. Este sofrimento humano ocorre principalmente pela perda ou ausência de sua morada (corpo), das buscas legítimas que seu corpo necessitaria respeitar para dar sentido às suas necessidades e aspirações, pela falta de sintonia com seu ritmo e pulsação pessoais que contemplem sua característica física e emocional.
O homem, me parece, perdeu referências tão fundamentais como as que advêm de seu próprio corpo. Penso que é muito importante favorecer no encontro clínico não só o alívio de suas dores, as adaptações posturais para que pessoas possam suportar melhor seu cotidiano, mas sim, e por meio destes sinais e sintomas, levá-los a viver em um corpo que, dentre suas queixas, demanda o encontro de sua singularidade e sua história. Quem sabe assim o ritmo, a pulsação, a tensão, o movimento, o gesto possam “brotar” deste Corpo que enraíza e dá lugar e que sustenta a direção de passos a outros caminhos.
* Samira C. Zar
Fisioterapeuta
Mestre em psicologia clínica
Bibliografia
- Gilberto Safra A poética na clínica contemporânea.
- Godelieve D. Struyfs Cadeia Musculares e Articulares, 1995.
- Samira C. Zar Do soma ao corpo vivo.




